Se Crepúsculo adapta o mito dos vampiros para pré-adolescentes emo que leem Capricho, True Blood faz o mesmo para adolescentes que já estão grandinhas demais para serem pegas com uma Capricho na mão, mas acessam o site da revista no modo privado do navegador.

A série de Alan Ball (A Sete Palmos, Nothing Is Private) tem censura 18 anos, mas gradualmente adiciona elementos juvenis à trama. Com o fim da 2ª temporada, que acaba de ir ao ar nos EUA, chega a ser possível começar a traçar paralelos entre a protagonista Sookie Stackhouse (Anna Paquin, a Vampira dos filmes dos X-Men) e o pequeno bruxo do bem Harry Potter.
Baseada na série de livros The Southern Vampire Mysteries, de Charlaine Harris, True Blood parte de uma ótima premissa - os japoneses (sempre eles) inventam uma espécie de sangue sintético que permite a integração dos vampiros à sociedade. A série da HBO começa bem, mostrando o que acontece quando vampiros chegam a Bon Temps, uma cidadezinha redneck no interior da Louisiana.
Em meio a preconceitos, implicações político-religiosas, assassinatos em série e à descoberta de que o sangue de vampiros equivale a um misto de MDMA com LSD elevado ao cubo, Stackhouse (que é telepata) se envolve com o vampiro Bill Compton (Stephen Moyer), um eterno romântico congelado no séc. XIX. Daí pra frente é melodrama.

Com muito sexo e corpos (pálidos ou não) nus bem distribuídos por todos os episódios.
O sexo e a nudez, aliás, são as únicas coisas que se mantêm num nível alto durante a série toda até agora. Vide o 1º parágrafo, os vampiros sem roupa atraem audiência e contribuem para fazer dela a mais bem sucedida da programação atual da HBO. True Blood chegou a passar a marca de 5 milhões de espectadores só na TV nos capítulos finais da 2ª temporada.
Mesmo com tanta falta de qualidade.
Da metade para o fim da temporada de estreia, quando os elementos de fantasia ultrapassam o limite da verossimilhança que contribuía para uma camada extra de crítica social a True Blood, Ball perde a mão ao introduzir um arco paralelo desimportante para a trama até a temporada seguinte. O resultado é um longo anticlímax.
Na 2ª temporada o anticlímax já se torna característica da série. E pior: é amplificado por uma tentativa mal-sucedida de criar suspense em cima de detalhes desnecessários à história e por roteiros esburacados que levam, a qualquer custo, a trama ao próximo gancho.
Enquanto a carga sexual e os vampiros, queridinhos da cultura pop atual, atraem audiência, os ganchos a mantém, alimentando a expectativa pelo próximo capítulo. O problema é que o gancho em True Blood é usado apenas pra isso. Introduz sempre algo surpreendente, mas que será resolvido já no início do episódio seguinte para que a série volte à programação normal.

True Blood tem bons momentos - onde mais alguém aprenderia o que acontece quando uma jovem virgem é transformada em vampira? - e é, indiscutivelmente, um hit. Mas se o objetivo da HBO (“é mais que TV”, diz o slogan) é oferecer aos espectadores algo além de uma versão softcore de Crepúsculo e afins, está falhando de maneira exemplar.
Ball e a emissora, que já trataram magistralmente de um tema muito mais complexo - a morte - em A Sete Palmos, deveriam saber que nem só de pares de seios e torsos oleosos se faz uma série para adultos.
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