Dando um tempo na sequência de merdas que esse blog vem nos presenteando, posto aqui um texto sobre o recém terminado A Travessia, que coloquei também lá no Miolos:
Ler Todos os belos cavalos, depois de ler A Estrada, causa uma impressão de “cadê a treta?!” sobre o primeiro. A Estrada se tornou o best-seller de Cormac McCarthy, obra-prima em sua narrativa direta, seca, pesada, e extremamente poética. As passagens de perrengue entre o pai e o filho andando pelo mundo devastado dão taquicardia. Todos os belos cavalos é muito mais leve, McCarthy segura as rédeas da violência, mesmo com ela ainda lá.
O romance conta a história de John Grady Cole, um jovem vaqueiro que, ao saber que não ficará com o rancho da família sob sua responsabilidade após a separação dos pais, resolve ligar o foda-se e fugir com seu amigo para o México, com a curiosidade do “vamos-ver-no-que-dá”. Passam um tempo cavalgando, conhecendo o país vizinho, até conseguirem trabalho em uma fazenda, chamando atenção e despertando inveja por serem “gringos”.
As merdas começam a aparecer quando eles encontram um terceiro viajante que acaba fazendo besteiras pelo caminho e quando John Grady se apaixona por Alejandra, filha do fazendeiro, e passa a aprender da pior maneira certos costumes que o velho México reserva. Ótimas passagens do livro nos diálogos entre John e a tia de Alejandra, um “você não sabe onde está se metendo” avisando que logo as tretas vão aparecer.

Livro premiado, McCarthy ilustra belamente a vida dos haciendados, a rotina no campo, o tratamento dos cavalos, o nascimento de um amor jovem sem futuro. Mas, salvo algumas passagens como os diálogos citados acima e uma ou outra sequência com uma violência mais exacerbada, aquele ritmo desesperador que impregna A Estrada nem passa perto por aqui, e Todos os belos cavalos fica com o gostinho de: “Cormac para meninas”. Lindo, mas falta sangue e tensão.
Aí temos A Travessia. Logo no início do livro, a sequência da descrição dos dois jovens irmãos Parham recolhendo lenha com seus cavalos que termina com um índio agachado exatamente onde um dos garotos acabou de passar mas não o viu é de mijar nas calças. A coisa ainda envereda para um daqueles diálogos de tensão silenciosa absurda que McCarthy faz tão bem (pra quem assistiu “Onde os fracos não têm vez”, vale lembrar a cena do personagem de Javier Bardem conversando com o tiozinho na vendinha de estrada; o romance tá na fila pra eu ler, mas se os Coen entenderam bem o espírito, essa sequência no livro deve ser de chorar).
Tensão instalada, e este segundo romance da ‘trilogia da fronteira’ (Todos os belos cavalos, A Travessia e Cidades da Planície) apresenta um McCarthy muito mais próximo ao de A Estrada.
A Travessia é épico. Um épico de formação, que acompanha poucos anos na vida do protagonista Billy Parham na saída da adolescência, apresentando diversas experiências que moldarão seu caráter como homem. Ele é muito mais garoto que o John Grady do livro anterior, e por isso muito mais inseguro e reservado. Deixa transparecer desconfiança e medo ao se deparar com mexicanos mais velhos que queiram de alguma forma tirar proveito de sua situação: jovem americano perdido nas terras mexicanas.
Diferente de John Grady, Billy Parham atravessa a fronteira Estados Unidos-México várias vezes durante todo o romance, algumas sabendo o motivo, outras não tendo a menor idéia. E não ter a menor idéia dos motivos parece um ponto principal no livro. Da mesma forma que o protagonista realiza diversas viagens sem rumo, a leitura também passa a sensação de que não existe um motivo maior ali, além das experiências e “causos” que surgem no decorrer do percurso. A cada encontro na estrada, uma nova história para se ouvir do viajante, todas trágicas, tudo sofrido, e o espírito de Billy vai se preparando para o que lhe é reservado.

Todos os belos cavalos é livro pra colocar Ryan Bingham na trilha.
A Travessia, não dá pra imaginar nada menos que Nick Cave e Warren Ellis.
Todos os belos cavalos tem adaptação para o cinema, com Matt Damon e Penélope Cruz nos papéis principais. O filme, dirigo por Billy Bob Thornton, é bem realizado, mas fraco.
A Travessia, impossível de filmar. A não ser que se isole alguma de suas partes. Mas aí, todo o sentido do percurso já se perdeu.
Cidades da Planície, que encerra a trilogia, reúne os dois principais personagens dos livros anteriores. Já tá aqui no armário esperando.