
Direto ao ponto: The Shield é a melhor série policial de todos os tempos. E, ao lado de Sopranos, o melhor “TV show” que já vi na vida. A primeira vez que vi a série foi em 2003, na casa de um tio que assinava o canal AXN. Era um episódio da primeira temporada. A edição, a decupagem, a câmera na mão, a ausência de música incidental, a linguagem chula, a violência e nudez sem pudores e, principalmente, a atuação extrema de Michael Chiklis como o detetive Vic Mackey, não me fizeram tirar os olhos da TV durante uma hora. Como não tinha TV por assinatura, tive que esperar até o fato de baixar episódios tornar-se algo corriqueiro para, assim, conferir de verdade a série.
The Shield conta a trajetória de Vic Mackey e seu “strike team”, uma unidade especial de força numa delegacia de Los Angeles, que tem como função encarar casos pesados, envolvendo assassinatos e tráfico de drogas. Só que Vic e seus parceiros (Shane, Lem e Ronnie) não são exemplos de policiais corretos, eles são dos nossos: têm tanta facilidade em arrochar criminosos quanto têm para roubar drogas que deveriam ser usadas como provas e revendê-las ou trocá-las por informações. Todo o submundo de L.A. conhece Vic e seus métodos, alguns são informantes não-oficiais, outros simplesmente são obrigados a cuspir aquilo que Vic quer saber, em troca de não apanhar ou não passar uns dias na cadeia por causa de provas plantadas.
Logo no primeiro episódio, o final já puxa o gatilho de uma situação que iria perseguir Vic até o episódio final. Assim, a série tem uma coerência impressionante, fica claro que o criador Shawn Ryan e seus roteiristas pensaram tudo desde o começo (o que não possibilitou a série virar aquele balaio de gatos que prejudica “Lost”, por exemplo). Um criminoso aparentemente insignificante, que na segunda temporada respondeu um interrogatório no “Estábulo” (a delegacia onde se passa a série), pode muito bem ser o principal suspeito de um homicídio na quinta temporada. Tudo está sempre ligado e conectado, coberto por roteiros excepcionalmente bons.
Mas o grande trunfo de The Shield é a complexidade de seus personagens e a relação que mantém entre si. Vic e Shane, amigos desde antes do strike team, desenvolvem uma relação de amor e ódio totalmente imprevisível durante a série, sendo que Walton Goggins, que interpreta o caipira sulista Shane, tem na última temporada uma interpretação extremamente sensacional - espero poder vê-lo em filmes e séries no futuro. O detetive “Dutch”, interpretado por Jay Karnes, é o responsável por desvendar os rostos por trás das máscaras dos acusados na sala de interrogatório, e suas deduções nunca são óbvias. O oficial Julien (outra grande interpretação, de Michael Jace) é outro poço de complexidade, já que divide-se na correção do policial irretocável e cristão praticante com seus desvios de orientação sexual. E as mulheres na série não são menos fascinantes: Corrine, esposa de Vic (Cathy Cahlin Ryan, mulher na vida real do criador da série Shawn Ryan), que carrega como uma cruz o fato do marido ser um policial corrupto que lhe mente 24 horas por dia; Mara (Michele Hicks, fantástica), esposa de Shane, que terá destaque especial nas últimas temporadas; e, é claro, Claudette Wyms (CHH Pounder), que começa como detetive e parceira de Dutch na série e termina como capitã. Os problemas pessoais que ela enfrente rumo ao final da série, e sua amizade com Dutch, é uma das coisas que mais me comoveram durante a série.
Não tem como não falar sobre o episódio final (calma, nada de spoilers). Apesar de Sopranos ainda ser a melhor série de TV que já vi, seu final - mesmo genial - não era um final clássico de seriado. Já episódio 13 da sétima temporada de The Shield, com cerca de 70 minutos, é quase uma queda num poço gigantesco, só se arrebentando no final. Ele foi escrito por Shawn Ryan e dirigido por Clark Johnson, a mesma dupla do episódio-piloto. Sua carga dramática é tão extrema, a forma como toda a tensão acumulada em seis anos explode em chamas com o destino de um dos personagens mais importantes, que eu parecia estar anestesiado, com aquela sensação de quem está esperando pelo pior, e sabe que ele virá. E, durante os créditos finais, ao som de Concrete Blonde e com trechos importantes da história da série, só deixa o espectador e fã com lágrimas nos olhos, já sentindo saudades do Estábulo e do strike team. É essa profunda imersão e empatia pelos personagens que, muito mais que os filmes, as séries de qualidade têm o poder de causar.
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